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As crias de Entre Metais

Bela obra do engenho humano ou asqueirosa ferida na fábrica da História de nossa bela nação: essa é Entre Metais. Dizem alguns que essa grande cidade é um dos marcos mais evidentes da conquista humana dos próprios limites, enquanto outros a consideram o ícone mais caricato da decadência de uma civilização que perdeu o rumo.

O que seria Entre Metais se não uma combinação das duas coisas? Afinal, bela e decadente é a maior metrópole nascida no antigo reino de Thornum, e hoje capital comercial da República de Nova Thornum. Uma cidade de luzes pontuais, onde a exuberante radiância de alguns ofusca o brilho fébil de outros. E, de tão fascinantes brilhos que marcam a trilha da bela cidade, igualmente formosas e imponentes sombras ganham vida atrás de cada obstáculo.

Não é inteiramente bela ou feia essa gigante, mas composta de um mosaico de cacos de vidas doces e amargas que dela são filhas. São crias de Entre Metais artistas de visão ilimitada, cujos traços servem de adorno a palácios em nações distantes, assim como também o são os adolescentes que trocam os frutos de suas empreitadas furtivas por doses modestas de químicos ilegais vendidos em becos mal iluminados. São crias de Entre Metais muitos sábios de mente iluminada, empreendedores que acreditam que limites existem para serem derrubados, ousados publicitários que desafiam os padrões em nome de suas marcas protegidas, idealistas fervorosos e sedentos por uma vida de lutas e filantropos apaixonados pelo futuro; porém, também o são as crianças de rua que pedem esmolas no sinaleiro escondidas dos furgões dos serviços sociais, os cafetões que comandam a diversão escusa de figurões enjoados de suas esposas, as prostitutas dispostas a alugar o corpo para prazeres vis por quantias modestas em dinheiro e os fetos abortados de clínicas clandestinas ocultas em prédios residenciais.

Há, porém, uma classe de crias de Entre Metais que não consta em lista alguma. Não é citada abertamente em anúncios de festivais, editais de políticas públicas ou pronunciamentos policiais. Vagam pelas ruas, salões e escritórios da metrópole os reflexos de uma realidade que se deformou há muito tempo. Não diferem aos olhos da maioria esses homens e mulheres que se dissolvem em todos os círculos sociais e políticos. Não dentro ou fora da lei, mas pretensamente acima dela, povoam o mito popular e a boca pequena de lendas novas e antigas com suas aparições.

Eles são os outros: os filhos esquecidos, escondidos sob mantos de humanidade. Anjos ou demônios, monstros ou heróis, reúnem-se em salas subterrâneas e em grandes salões comerciais para darem forma e rumo a conspirações que as almas dos agentes da lei e do crime não imaginam existir. Não se ouve falar sobre eles… ao mesmo tempo que se ouve o tempo todo. Você já deve tê-los visto vagando por aí... espero apenas que não se recorde.


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