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A legião de Entre Metais

O rapaz levantou o dedo e pediu por mais uma cerveja. Sentado sozinho à mesa, deixava claro que passava dos limites conforme as garrafas vazias se enfileiravam ao chão.

O infame bar do Elos usufruía de um movimento moderado, mas constante. Clientes entravam e saíam, nunca se acumulando. Poucas cervejas por mesa, poucas doses destiladas para alguns clientes frequentes. Não era o lugar pra se demorar.

O garoto não tinha nenhum apreço particular pelo ambiente. Era sua primeira visita por ali, e seu contato já estava atrasado em 20 minutos. Apreciava, porém, a desculpa para arrematar mais garrafas de cerveja, e a aproveitaria enquanto pudesse.

Um desconhecido se posicionou em frente à mesa vestindo calças escuras com suspensório e uma camisa clara. Usava um casaco sob o qual um volume sugeria um coldre oculto com uma arma de baixo calibre.

"Jean?" indagou o recém chegado. Observava o garoto de olhar sonolento tomando despreocupado de seu copo meio cheio de cerveja: Jean tinha cabelos curtos e escuros, barba por fazer, olheiras profundas em olhos castanho-claros adornando um rosto quadrado de maxilar largo. Certamente era o homem da foto que lhe deram, certamente em uma condição muito distante da ideal para uma conversa civilizada.

"Pode ser" respondeu o rapaz arrastando as palavras com um pequeno esforço. Apontou a cadeira vaga do outro lado da mesa com um gesto cambaleante de mão. "Sentaí, pede mais uma. Essa tá acabando".

O homem se sentou com uma expressão incrédula. Tinha a pele e olhos negros, lábios grossos e nariz largo compondo um rosto alongado, e mantinha a cabeça meticulosamente raspada.

"Eu sou Cades" se apresentou sem fazer menção de apertar a mão de Jean. "E você está bêbado".
O garoto riu balançando a cabeça, não ficando claro se o fazia por desdém ou por dificuldade de mantê-la firme.

"Eles não calam a boca", respondeu Jean. "Quem sabe se eu ficar grogue o bast… bastante eles param de me encher o saco. Ninguém quer falar com bebum".

Cades o observava seriamente. Percebia logo que tratava com uma alma atormentada. Talvez fosse de fato maluco, como outros  lhe adiantaram. Fosse como fosse, seu trabalho ali era verificar se o rapaz poderia ser útil de alguma forma.

"Eu te chamei aqui pra discutir algo sério. Não esperava te encontrar nessa condição".

Jean baixou a cabeça e deixou escapar um soluço fraco. "Cades? É esse o nome que você disse? Você me chamou pra conversar sobre as coisas do outro lado, não pra me dar terapia".

"Quem você quer afastar?" perguntou Cades, visivelmente frustrado pela viagem perdida.

"Vai saber" bradou Jean aos risos. "Pode ser qualquer filho da puta. Pode ser algum soldado da inquisição… talvez algum amante morto por um marido  ciumento. Talvez até a tua mãe. Só sei que hoje eles não querem calar a boca".

A ficha dizia que Jean afirmava ouvir pessoas mortas. Talvez o estresse o colocasse pra beber. Independente da explicação, estava claro que ele era maluco.

"Meus colegas acham que você pode ter algum dom interessante para nós" se adiantou Cades. "Como eu posso diferenciar você de algum maluco qualquer que ouve vozes?"

Jean levantou o copo vazio à altura do rosto e se arrastou nas palavras: "Pede mais uma que eu chamo algum bisavô teu pra dar depoimento". Riu sarcasticamente e começou a tossir.

Cades olhava para um ponto distante, cada vez mais convencido de que perdia tempo. Um silêncio pesava sobre a mesa, ofuscando completamente o ruído da circulação de pessoas pelo bar.

Jean suspirou e esfregou os olhos. "Não é um dom, detetive" começou a falar repentinamente sério. "É uma maldição. Numa cidade desse tamanho, os mortos estão por todos os lados. Para mim, essa cidade é mais deles que dos vivos".

"E por que não se muda pra alguma região isolada e mais tranquila?"

"Aí são só os meus cadáveres que me acompanham. Eu prefiro a legião de Entre Metais".

Cades o olhava nos olhos. Não era um mentiroso, isso estava claro. O estresse estava presente em cada suspiro e em cada sílaba arrastada pelo álcool. Sabe-se lá o que se passa por essa mente conturbada. Talvez fosse melhor deixá-lo para lá. Indicar tratamento psiquiátrico.

"Mas eles não param nem que eu desmaie de bêbado", continuou Jean. "Bando de gente teimosa são os mortos. Eles não pensam como a gente. E eles não têm tato" disse Jean com um indicador em riste, soluçando quando dizia "tato".

"O que eles te dizem?" perguntou Cades, já pensando no que tinha para fazer depois dali e se preparando para sair.

"Agora? Tem um falando pra você me pagar uma cerveja. Eu acho que você deveria ter mais respeito pelos mortos".

Cades riu e se levantou deixando alguns dons para ajudar na cerveja, embora não tivesse bebido um gole sequer.

"Não os deixarei desapontados" disse ajeitando a gola do casaco para se retirar.

"Tem um gritando o seu nome aqui e dizendo que Laura deveria estar morta, e não presa" falou Jean em tom de pouca importância. "Eles querem gritar com você, mas só eu que ouço… você guarda sua irmã num porão ou algo assim?"

"Não tenho ideia de quem é Laura" completou Cades, fazendo meia volta para sair. "Passe bem, Jean. Procure um psiquiatra".

"Laura Pessatti… que nome estranho. Nunca ouvi. Bla bla bla, fogo, tua família. Ninguém se importa, cara. Chega".

Cades parou à menção do sobrenome e se virou para olhar o jovem bêbado à mesa enquanto ele fazia sinal para que Elos lhe trouxesse ainda outra cerveja. À aproximação do dono do bar, Cades fez um sinal com a mão indicando que não deixasse a garrafa ali. Aproximou-se novamente da cadeira e se sentou.

"Onde você ouviu esse nome?"

"Qual? Pessatti? Tinha um cara gritando pra você agora há pouco. Quer trocar? Você conversa com ele e eu arranjo um emprego que me deixa vestir roupa bacana assim. Aí eu mando a sua cerveja não vir, pra você ver como é bom". Balançava a cabeça inconformado. Estava bastante atento, apesar de tudo. "Se você tivesse que ouvir o monte de merda que eu ouvi hoje, você também beberia. Dom… essa merda não me deixa nem parar no mesmo emprego por mais de dois meses".

"Ouviu hoje? Não costuma ser assim?"

"Alguma coisa aconteceu hoje" disse Jean torcendo o nariz. "Alguma coisa do outro lado. Sei lá o que foi. Eu sempre escuto um povo gritando por aí, mas desse jeito num tem condições".

O nome Laura Pessatti não era um mero acaso, disso Cades tinha certeza. A mulher não fora anunciada à mídia com esse nome, e estava claro que o rapaz não ligou o nome à pessoa.

"Você consegue controlar essa coisa? Você consegue escutar coisas quando quer?"

"Por que alguém ia querer escutar essa merda toda?" esbravejou Jean inconformado. Apoiou os cotovelos na mesa e a cabeça nas mãos esfregando os olhos. Novo silêncio pairou sobre os dois por alguns segundos.

"Escutar eu não escolho" articulou devagar, se esforçando para pronunciar as palavras e não estremecer a voz com o choro que parecia querer sair. "Tem uma outra coisa que eu faço… não sei se é outro… dom… ou se é a mesma coisa de outro jeito. Essa eu faço quando quero".

"Tipo?" indagou Cades o olhando com uma sobrancelha levantada.

Jean balançou o rosto tentando recobrar a atenção. Pensou por um instante olhando para o nada, com a palma de uma mão apoiada na mesa, então começou a olhar para os lados, como se tivesse alucinações. "Você esteve nesse bar algum tempo atrás. Sei lá quando. Você vem bastante aqui, mas dessa vez você está sentado com um outro cara naquela mesa" apontou com o nariz para um ponto onde não havia mesa alguma. "Ele tem um cabelo comprido e bem cuidado, preso atrás, e umas olheiras escabrosas… eu acho que já vi esse cara em algum lugar. Tá tudo muito nítido… o rapaz deve ser um tipo muito raro. Vocês são magos, não são? Sim, aquele é Pietro. Pietro Arcanjo, tô lembrado agora. Ele já me procurou uma vez. Agora você tá passando uma pasta pra ele com uns papeis. Vocês sempre fazem essas coisas às claras assim?". Jean então teve um sobressalto e se interrompeu repentinamente. Arregalou os olhos e piscou várias vezes, como que para se manter acordado. Manter a concentração naquele estágio de embriaguez não haveria de ser uma tarefa simples.

Cades o observava atentamente com breves sinais afirmativos com a cabeça; seu interesse finalmente fora despertado pelo rapaz. Pôs a mão dentro do casaco e tirou um cartão do bolso interno, entregou-o e se levantou para se retirar.

"Amanhã, depois que você curar sua ressaca, me ligue. Faça tudo direitinho e você nunca mais vai precisar procurar um emprego".

Cades saía a passos largos do bar seguindo a rua à direita absorto nos próprios pensamentos. Puxava a manga do casaco para olhar seu relógio sem ver as horas várias vezes conforme andava enquanto sua mente vagava por recônditos obscuros da rotina da metrópole.

"Ele fala em magos. Ele sabe de mim" recapitulou. "Pietro o procurou. É melhor esse cara valer a pena".

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