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Predadores

Matéria de pequena relevância para a grande mídia, circulou por redes sociais um link de um tabloide de segunda categoria, classificando como "bizarro" pelos crédulos da mitologia urbana de vida curta, a respeito de um disparo de uma arma de baixo calibre em um beco qualquer de um bairro da zona leste de Entre Metais.

Não impressionava o disparo em si ou o atendimento às pressas a uma vítima com um perfuramento no rim direito, mas sim a descrição completa dada pela polícia: a vítima, um sujeito já procurado por suspeita de repetidos assaltos sexuais a mulheres de diversas regiões da metrópole, foi encontrada inconsciente e à beira da morte, e as evidências sugerem que o disparo ocorreu de suas costas. Um ato de vingança para alguns, uma medida de justiça divina para outros: o autor do disparo ficou consagrado nas intermináveis conversas virtuais como o esperado justiceiro de que a cidade necessita. Independente da versão aceita para a orientação moral de seja lá quem for, o atirador não foi visto ou identificado. O mais próximo de uma evidência que levasse a qualquer pessoa era uma ligação de telefone, muito mais estranha que o resto do caso.

O que poucos sabem é que não há justiceiro ou ato divino nessa empreitada específica. Ela é real, como muitos absurdos rejeitados pelos editoriais dos periódicos de grande circulação, mas foi realizada sem paixão - talvez um pingo para fins de honestidade - ou pretensões de execução em nome de qualquer ideal. O caso foi resolvido, como muitos outros, em uma transação comercial como muitas outras: um escambo de vida por dinheiro - cuja fonte, essa sim, tinha um interesse passional pelo desfecho desastroso da vida do famoso estuprador.

E foi assim que aconteceu: após dias traçando itinerários e tentando entender padrões na rotina do homem, a mulher que atende pelo nome de Carla Carman finalmente foi capaz de identificar seu alvo.

Uma curva à esquerda e o caminho se convertia na rua estreita de paralelepípedos destinada apenas a pedestres. A moça andava a passos largos e apressados, ecoando nos estalos dos calcanhares de suas botas o nervosismo da mulher forçada a caminhar sozinha à noite por ruas mal movimentadas, um sentimento apenas delas conhecido. Era teatral o esforço, como também era teatral o olhar apreensivo, que já captara o agressor à distância em um canto escuro sem que ele o soubesse.

Era belo o contorno de Carla, mas entendia bem a mulher que isso não era necessário para buscar essa laia. Vestia um casaco comprido vermelho e calças pretas que acompanhavam a silhueta de uma praticante assídua de esportes. O rosto era moreno, os lábios finos e o nariz empinado, e sardas, invisíveis àquela parca iluminação, pontuavam seu rosto com um traço inesperado para sua cor de pele.

Por que aceitou esse trabalho? Pais de família comuns não são seus clientes habituais. Vingança? Já operou muitas vezes sob esse mote, mas sempre em casos que envolvessem outra casta da sociedade citadina. Havia, porém, alguma simpatia naquele homem simples que ligou forçando na voz uma resolução que não era a sua. A fraqueza da alma atormentada pelo sofrimento da filha… Carla não sentia empatia pelo sofrimento de uma vítima de estupro, não operava assim seu coração depravado. Foi a falsa bravata daquele homem e a ousadia de buscar um assassino de aluguel após uma vida de trabalho honesto e impostos pagos em dia que a impeliu na direção daquele serviço que considerava bobo; ela sentia uma forma curiosa de prazer em se fazer extensão daquele tipo de ira.

Mais passos apressados e agora seu alvo se movimentava em sua direção. Sim, ele era um predador, e ela era uma presa - esse era o teatro sendo encenado. O olhar na direção correta e as mãos nos bolsos do casaco prentendo a bolsa contra a cintura eram suficientes para inspirar no homem a segurança de que precisava para o ataque. A mulher virou para o beco escuro como quem deseja cortar um caminho, tornando ainda mais atraente a ocasião para o bote de seu desavisado caçador de aventuras odiosas.

Não havia transeunte além deles - o palco perfeito para tal ato. Erguem-se as cortinas da cidade grande e entram em cena duas castas diferentes de predadores para a apreciação da plateia de deuses que se contentam em assistir e aplaudir, mas nunca em lançar flores.

O homem a seguiu a passos firmes com sua faca na mão direita oculta no bolso da calça jeans de corte elegante. Tinha altura próxima de 1,80 e ombros largos, rosto bonito e roupas de marcas famosas. Quando pegou pelo ombro sua vítima, sorriu. Tampou da mulher a boca com uma mão enquanto a outra lhe pressionava o pescoço com a lateral da lâmina. Sim, que achado… era linda a mulher. Quando a encostou no muro, saboreou com reverência o olhar de desespero.

Ao menos era isso que acontecia em sua mente. No beco do mundo real, porém, estava de frente para a parede, apoiado com uma das mãos, enquanto Carla, às suas costas, o observava interessada. Ele gemia - estava claro que sua fantasia o fazia sentir muito prazer - mas seu corpo permanecia estático. "Fantasia" era o nome que Carla dava a seu artifício preferido. Lançar imagens à mente de uma pessoa é muito difícil, mas o subconsciente é uma fábrica fantástica de fantasias - ele pode se ocupar de criar imagens mais reais que a própria realidade. Medos ou desejos muito profundos se materializam com facilidade, dado o esforço adequado e o conhecimento pertinente da magia envolvida.

Refino em exagero para um trabalho tão sujo. Carla tirou com calma o revólver de sua bolsa e o encostou na nuca do homem que não tinha ideia do que acontecia. O que levava um sujeito tão "bem apessoado" e conformado aos padrões dessa cidade a repetidamente se engajar em assaltos sexuais quando poderia com um mínimo esforço conseguir sexo consensual com alguma mulher em alguma casa noturna?

"Geme, vadia" murmurou o homem do fundo de seu sonho desperto. Carla não sabia o que ele via - era a mente dele que fabricava as imagens, e não a dela, mas mantê-lo sob esse efeito dava à maga experiente vislumbres das sensações que experimentava aquela mente conturbada.

Não era abstinência sexual seu problema. Não era também puramente uma doença mental. Era a sensação de poder… como ele se deliciava com aquilo, viciado que era na droga de seu prazer forçado. Faria novamente e novamente, e só pararia quando alguma Carla o encontrasse em uma curva, com a motivação correta. Ela entendia isso melhor que ele.

A assassina finalmente percebeu que aquele homem encontraria paz, e não mais teria de caçar seu prazer para saciar esses desejos obscuros. Que breve momento de maquinação maligna trouxe seus sentidos à nuca do homem quando ela a imaginou raspada enquanto ele vestia um uniforme em um presídio e era violentado por seus parceiros de cela à vista grossa de um agente carcereiro mal pago. Quais seriam as sensações dele naquele momento? Ele mesmo não parecia temer. "Que tal um jogo de azar?" perguntou ela para o vento. "Você cai aqui, inconsciente, com um ferimento grave. Se morrer, os deuses assim o quiseram. Se viver, que sua nova vida te sirva para alimentar novas fantasias. Me diz, querido… você se sente com sorte hoje?". Sorriu e deixou escapar um riso fraco.

Trouxe a arma da nuca de seu alvo e o encostou nas costas, à altura do rim direito. O celular no bolso do homem dava sinais de querer cair, então o tomou e ligou para a polícia.

"Eu tenho um homem à minha frente e tenho uma arma encostada em suas costas. Se ele não receber atendimento rapidamente, morrerá". Antes que as perguntas da operdora de telefone da polícia ao outro lado da linha chegassem à interrogação, o disparo ecoou por diversas ruas desertas.

Quanto ao cliente? Nunca precisou pagar pelo serviço.


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