A paisagem diurna revela as formas e as cores de uma cidade agitada. A passagem do Sol torna vivas as travessias e becos, e revela cada rosto em sua forma única. A noite, por outro lado, oculta formas completas e presenteia olhos apenas com silhuetas idênticas. Marcadas pelo contraste entre as intensas sombras e as luzes amareladas dos postes de iluminação pública, as vias noturnas de Entre Metais formam uma cidade diferente daquela que os trabalhadores diurnos conhecem bem.
Luzes são expositoras de pessoas descuidadas e becos são reduto para aqueles que não querem ser vistos. Era uma combinação de ambos o homem que entrou naquele beco qualquer.
De madrugada, o caminho para casa é sempre um momento de refrescar a cabeça. Terminado o período de festa, ainda ressoantes em seus ouvidos os intensos ruídos da casa noturna, Fineas aproveita a desnecessária caminhada para refletir sobre seus problemas pessoais, curiosa ironia considerando que passava suas noites sob música alta e álcool para que pudesse ignorá-los.
Talvez valha ressaltar que esse homem não podia usufruir do privilégio de beber para esquecer. Há muito tempo não surtia sobre seu corpo efeito algum o odioso álcool. Poderia beber litros de bebidas destiladas fortes e dirigiria em segurança para casa - embora não tivesse como explicar à polícia o resultado consequente sobre o bafômetro. Não, explicações eram inconvenientes, sabia disso há muito tempo, e por isso andava com o corpo cheio de álcool e os sentidos em perfeita ordem.
O morador informado de Entre Metais pode reconhecer no nome incomum uma figura pública. Poucos conhecem homens de nome Fineas, e talvez seja ainda mais raro conhecer por esse nome homens pálidos, loiros e de constituição robusta típica dos homens vaidosos e praticantes de esportes. Estaria certo o morador bem informado em assumir que era esse mesmo Fineas o secretário do prefeito que muitas vezes atua como porta-voz da prefeitura para os programas de rádio.
As pessoas habituadas ao tom imponente de sua voz e à sua habilidade singular em irritar repórteres com suas respostas atravessadas não esperariam encontra-lo usando um beco em uma rua pouco movimentada para urinar em plena madrugada. Ainda assim, lá estava Fineas: um banquete ignorado para a imprensa que por ele não alimentava grande apreço.
Mas não é apenas político e boêmio o descuidado secretário: é também criatura das ruas, conhecido de outras criaturas das ruas, e por isso andava sozinho e não temia as sombras. Talvez fosse por isso que aqueles que com ele têm desavenças escolhessem outras pessoas menos informadas para a passagem coersiva de recados. E foi em uma dessas péssimas escolhas profissionais que caíram os três homens que, segurando pés de cabra e chaves de boca de automóveis, o cercaram enquanto urinava.
"Fineas" disse um deles. "A famosa língua de chibata. Tem alguma coisa que você deveria ter resolvido para Alanino essa semana. Ele não está feliz".
Fineas terminou o que fazia, fechou com calma a calça e se virou para os homens que o cercavam. "Aí ele mandou vocês aqui pra falar comigo? Vocês limpam a bunda dele também?"
"Escuta aqui, colega" se adiantou um outro a falar. "O recado de hoje é pro cara que não faz o que é pago pra fazer e não atende o telefone".
"Eu fiz o que Alanino me pediu em troca do cargo. Ele que vá à merda agora".
Três rapazes de recado de um criminoso com influência política raramente são enviados para apenas passarem recados verbais. A missão deles era passar outro tipo de recado, para que a dor, e não as palavras, manifestassem a frustração do patrão em não ter seus pedidos atendidos. Foi para isso que eles vieram, e foi com essa mentalidade que o terceiro, até então quieto, acertou o joelho de Fineas com seu pé de cabra deixando soar um estalo doloroso de osso partido.
"Filho da puta!" gritou Fineas caindo ao chão. Os três riram.
"Você vai ter bastante tempo pra pensar no hospital, infeliz" disse um deles erguendo a chave de roda para um novo golpe; a expressão da vítima não foi a de quem antecipa dor, mas a de quem ri com a alma.
"Hospital! O chefe de vocês é um ignorante mesmo".
Após uma sucessão de golpes e risos, os três pararam para conferir o homem desfalecido ao chão: membros em posições pouco naturais, o rosto marcado em roxo de solas de sapato e a roupa rasgada pareciam a visão do recado ideal. O próximo secretário haveria de ser mais sensato. Os três se afastavam soltando as armas improvisadas, conversando baixo e acendento cigarros.
"Ei" exclamou a voz de Fineas. Quando se viraram, viram o secretário apoiado à parede, o rosto inchado, o sangue escorrendo pela roupa e a perna torta pelo osso quebrado. "Mas me diz assim… ele tava chateado tipo 'muito puto'? É verdade que ele come o cu dos capangas quando tá assim? É muito grande? Digo, o pau dele".
Os três riram. "Cara, esse sujeito deve ser daqueles que gostam de apanhar".
"O nome é masoquista" complementou o outro do topo de sua sabedoria. "Vamos deixá-lo feliz, pelo menos vai compensar pela noite. Ele só precisa estar vivo, ninguém falou que ele precisava dos dois braços".
Voltaram a se aproximar do secretário a passos largos e mãos nuas. O primeiro soco atingiu o rosto, um chute atingiu a boca do estômago, mas o terceiro golpe, outro soco, encontrou um braço em posição de defesa. Fineas acertou um dos atacantes em uma costela com um punho em velocidade suficiente para partir um osso; em seguida, bateu com a testa no nariz de outro, o apanhou pela roupa e o lançou contra a parede de tijolos do prédio que formava o beco.
O terceiro, não preparado para essa reação, deu um passo assustado para trás. Em um movimento brusco e rápido, Fineas se apoiou na perna boa e se jogou para cima do homem, rolando com ele pelo chão por vários metros.
"Então é a minha vez de passar um recado, moleque de bosta" sussurrou o secretário gotejando sangue de sua boca junto com a saliva expelida quando falava com os dentes quebrados, fazendo força para se apoiar sobre o joelho bom.
Descontando a frustração pela dor que sentia, desferiu um soco contra o rosto do homem de olhos arregalados incapaz de esboçar reação. "A cadeia alimentar aqui é outra. Vocês podem ser uma matilha de cachorros muito organizada, mas ainda são só cachorros". Se aproximou para falar ao ouvido enquanto as mãos de força descomunal seguravam os braços. "Cachorros não me assustam".
Com agilidade, se levantou sobre uma única perna como quem já tivera o desprazer de passar por essa situação diversas outras vezes, ergueu o agressor do chão em um único súbito movimento e o prendeu contra a parede.
"Essa coisa da perna dói pra caralho" disse baixo enquanto ria. O outro, tonto pelo golpe no rosto, tentava esboçar palavras - talvez algo como "não" ou "desculpa" - mas foi interrompido pela súbita dor em seu braço conforme os dentes de Fineas se aprofundavam em sua carne e arrancavam parte de seu músculo. O grito se converteu em silêncio e a dor se fez em escuridão conforme a mente decidia pelo abandono do mundo real e pelo desmaio. Mas não haveria oportunidade para isso: O secretário sacudiu a cabeça do homem. "Fique comigo. O recado é pra você também" disse de boca cheia enquanto mastigava e sentia o sangue escorrendo pelo queixo. Mais duas mordidas e não havia mais bíceps e parte do tríceps. A dor lacerante encontrava a noite escura na forma de gritos de desespero enquanto as janelas da rua próxima se fechavam.
Quando Fineas soltou o homem para que caísse em convulsões no chão, não mais parecia ter uma perna quebrada - apenas mancava como se tivesse uma dor inconveniente no joelho. O osso do braço de sua vítima à mostra era a evidência ostensiva do ato de canibalismo ali cometido - uma das muitas atrocidades que as ruas de Entre Metais testemunham em mudo consentimento todas as noites.
Quando se deu conta, Fineas estava entre três homens inconscientes, um deles sangrando por um ferimento grotesco no braço. Enquanto dois deles poderiam ser internados como vítimas de uma briga qualquer de rua, o último certamente seria um inconveniente para aqueles que se beneficiam do silêncio. Com isso em mente, o secretário decidiu realizar um telefonema.
"Dário..." disse em tom de remorso. "Eu tenho um cara num beco".
A voz sonolenta do outro lado da linha externalizava a frustração de ser acordado de madrugada por algo assim. "Não é a primeira vez, Fineas. Quantas vezes Lucas te disse pra cuidar com a fome?"
"Foram três homens do Alanino. Eu seria hospitalizado se não tivesse feito nada".
A linha telefônica ficou em constrangedor silêncio por alguns segundos.
"Eu vou até aí" foi a resposta. "Ele vai sobreviver?"
O secretário olhou para o homem caído ao chão conforme a poça de sangue ao seu redor lentamente aumentava em área. "Não. Se ele tem sorte, já morreu".
Assim, discorreu que, minutos depois, três pessoas apareceram para limpar lugar e entregar roupas novas a Fineas. É claro que o favor não seria gratuito - as negociações aconteciam em favores políticos.
Os dois homens inconscientes seriam hospitalizados e seu colega seria dado como desaparecido enquanto seu cadáver seria lentamente devorado por peixes. Os vizinhos falariam do grito que ouviram, mas das imagens que não viram. "Um estupro", "mas o grito não foi masculino?". "Latrocínio!". Mais ousados e mais próximos da realidade, os místicos da vizinhança falariam em demônios que abduzem pessoas na calada da noite nos becos escuros das vias secundárias. Não haveria imprensa além de tabloides de segunda categoria.
Assim se passaria mais um assassinato atroz em Entre Metais, como são aqueles realizados pelas coisas que não deveriam existir: escandaloso e despercebido.
Sobre
Sobre o autor
Rudolf Copi Eckelberg nasceu em Foz do Iguaçu no ano de 1986 e atualmente reside na terra das capivaras, Curitiba. É formado em Física pela UFPR, mestre em Engenharia. Nascido para o meio acadêmico, hoje cursa Ciência da Computação pela mesma instituição.Sua veia científica não bloqueou de forma alguma a artística. Escritor amador desde 2003, Rudolf enveredou pela comédia até esbarrar no surrealismo, utilizando-se desde ironias sutis a verdades grosseiras para levantar reflexões pertinentes ou simplesmente para contar uma boa história. Foram suas cenas vívidas e frases evocativas que me convenceram a chamá-lo para fazer parte da equipe de escritores do Toco de Vela no começo de 2013. Poder acompanhar o seu desenvolvimento como escritor tem sido uma jornada ao mesmo tempo surpreendente e cativante.
Entre seus trabalhos recentes, atua também como revisor da revista Polyteck.
Cinthia Goch, criadora e escritora do Toco de Vela.
modal
O carniçal
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Rudolf

